Vamos chamar o nordestino bom de briga “Elcio Rosa”, e la vinha ele, todo vestido de cangaceiro, pegava o microfone e falava:- sou do norte, bom de briga e dou sorte.
Subia no ringue, ameaçava uns passos de capoeira, suas pernas finas e compridas enroscavam nas cordas e ele caia, estava feito seu marketing, todos riam e vaiavam, era uma festa só. Era o tipo de lutador bom para abrir um programa, porque agitava a galera.
O Elcio Rosa era um cara do bem, posso apostar que nunca brigou na sua curta vida e era evangélico.
Esta sempre num canto, lendo a Biblia, mas não era daqueles crentes que costumam encher a paciência dos outros, querendo converter.
Apesar de ficar sempre lendo, era um cara legal, topava todas as brincadeiras dos colegas que, as vezes pegavam pesado.
Coma da vês que fizeram ele engolir alguns comprimidos de “JIN-TAN”, que são para o estômago, mas convenceram-no de que eram alucinógenos e depois tiveram que amarra-lo no ônibus porque pensava que era um passarinho e queria pular pela janela, com ônibus a 100 por hora.
Era campeão de palavras cruzadas, era bom de verdade.
Era um cara legal, meio inocente. Todo mundo gostava dele, eu, mais do que todos, até porque fazia parte da minha equipe, lutou para mim durante uns 4 anos, mas, ele tinha um defeito sim senhor, e quando exagerava me deixava irritado.
Ele bebia.
Nunca faltou numa luta, mas bebia, bebia conhaque puro, conhaque com limão, com pinga e, bebia bem.
Quando chegávamos no local da luta se tivesse um bar…..meu Deus.
Um dia estávamos voltando de um show, era madrugada, ele mal tinha conseguido lutar, agora dormia e roncava, bem alcoolizado.
Quando chegamos, já estava quase bom, então aproveitei e repreendi-o.
Devo ter sido um pouco rude, mas puxa, tive que mandar outros lutadores subirem para salvar a luta pois ele nem parava em pé.
Ele respondeu que se não podia beber, estava fora e foi embora.
As segundas feiras, todos os artistas, empresários e trabalhadores de circo se reuniam no largo do Paissandu, centro de São Paulo, para arrumarem trabalho e para fecharem shows com os cirqueiros.
Era lá que eu arrumava lutas para a semana toda.
Num canto do largo vi o Elcio Rosa conversando com o “Fernandão” (nome ficticio) que tinha um desafio naquele dia, com um cara de Itupeva, no circo.
De longe percebi que o “Fernandão” havia convencido o Elcio a ir junto.
Não gostei.
Quando ele ficou sozinho fui la e falei para não ir, que essas lutas/desafio em circos quase nunca acabavam bem.
Ele fez de conta que não me ouviu e logo em seguida vi quando entrou no carro do “Fernandão” e sumiram.
Três horas da madrugada “Fernandão liga para minha casa e chorando disse:- vem pra cá que mataram o Elcio Rosa.
Tomei um banho e fui para Itupeva, la chegando, fui procurar o Delegado para saber o que tinha acontecido.
Disse o Delegado:- O Elcio estava na barraca do circo, lendo a Biblia, quando escutou uma gritaria levantou-se, e abriu a lona para ver do lado de fora e levou uma facada bem no coração, caiu morto com a Biblia na mão.
“Fernandão”, era violento e bateu em um homem que queria entrar sem pagar, ele foi para casa pegou uma faca e voltou ao circo.Procurou seu desafeto, alguém falou que estava na barraca.
Ele então pulou a cerca do circo, agora já com a faca na mão e foi em direção da barraca, motivo da gritaria.
No escuro, vendo que alguém estava abrindo a lona, assustado, pensando que fosse o lutador de quem havia apanhado, espetou a faca bem no coração!
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